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A NOITE VAZIA DE AMPARO (Edu Muylaert)

Texto e fotos de EDUARDO MUYLAERT Veio a pandemia, a corroer as estruturas e a provocar desastres que se inscreverão por muito tempo na paisagem. Talvez os tenhamos provocado, com o desprezo pela natureza e o descaso com os mais fracos. Agora temos que conviver com o confinamento ou a morte. Amparo, estado de São Paulo, tem perto de 200 anos, 70 mil habitantes, e um lindo patrimônio histórico e ambiental. O Prefeito decretou quarentena. As pessoas estão isoladas em suas casas. Esta série, feita em 21 de abril de 2020, retrata a cidade sem a sua gente. E os tons dramáticos que parecem refletir a aflição do momento. O Jardim Público sem os casais de namorados, as ruas desertas, o prédio com luzes nas janelas, por trás de um portão que não leva a lugar nenhum. Sou grato, Amparo me acolheu no isolamento.

MOMENTOS DRAMÁTICOS

  (This photograph from Thomas Hoepker is available at magnumphotos.com ) EDUARDO MUYLAERT A mulher com a blusa colorida e cheia de sacolas caminhava pela beira da estrada, quebrando a expectativa da paisagem. Por que estaria fora de casa, quando quase todos estão confinados por causa da pandemia? Pode ser que tenha ido comprar mantimentos para alimentar a família, terá filhos? Parece ainda jovem, mantém a cabeça erguida e enfrenta sem temor os percalços do trajeto. Fazia quinze dias que eu não saia de casa, entre medroso e obediente. Lembrei do avô médico, que morreu muito cedo, quase não convivi com ele. Mas sei que nas epidemias do começo do século XX, ou quando a aviação de Getúlio ameaçava bombardear São Paulo, procurava pôr os filhos a salvo no interior. Para entrar em Morungaba, passagem obrigatória para Amparo e Serra Negra, foi preciso dar a testa ao termômetro. Protegi a boca e o nariz, e a enfermeira pediu, não sem um sorriso, pelo amor de Deus para eu não esp...