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Mostrando postagens com o rótulo ETEL FROTA

UM DIA DE CADA VEZ, o caruncho

Desde há muito tempo aderi aos orgânicos, mas na era pré pandêmica me atinha principalmente às frutas, verduras e legumes. Além disto, desde que meu ninho esvaziou deixei de estocar o que quer que fosse. A pandemia mudou tudo. Descobri um hortifruti sensacional, compra online, entrega em domicílio. E que, além dos vegetais frescos, tem grãos -o melhor milho de pipoca de todos os tempos- açúcar demerara, mel, molho de tomate pronto, farinhas. Aderi entusiasticamente. E cometi a bobagem de comprar mais feijão do que sou capaz de comer. Hoje fui buscar o último pacote para cozinhar. No fundo de uma das caixas de plástico, brancas, em que guardo meus mantimentos, percebi pontinhos pretos. Imaginei que fosse um saquinho de linhaça que tivesse furado. Só que a linhaça se movia, reparando bem. Tirei a caixa de dentro do armário para ver melhor. Minhas amigas, meus amigos, faltam-me recursos narrativos... Conheci caruncho muito bem. Criança bem novinha, morei certa vez em uma casa que tinha mi...

UM DIA DE CADA VEZ, A FAXINA

    Alguns pontos de mofo no meu banheiro vinham desafiando minha autoestima. Não, eles não começaram agora, são pré-pandêmicos; talvez tenham começado a me atormentar neste momento porque tenho olhado mais para eles, ao mesmo tempo em que meus mecanismos de resiliência dão os primeiros sinais de esgotamento.    O fato é que hoje decidi encará-los. Com coragem. Eram só alguns pontinhos, coisa pra meia hora.     No máximo, vai, estourando, uma hora.   Essa uma hora, a primeira da manhã, já estourei, de cara, consultando tutoriais no YouTube, me apetrechando para o enfrentamento.    Faxina teórica.   O revestimento do meu banheiro, suporte físico dos fungos, tem uma história piegas. Necessário contá-la.   Tive um namorado, certa vez, um grande amor da vida. Tão doentinho quanto eu. Fomos felizes, ríamos muito na comparação dos nossos sintomas obsessivo-compulsivos. Fomos felizes.    Levamos ...

UM DIA DE CADA VEZ: modesta contribuição à divulgação científica

A Covid-19 tem sido uma grande incógnita para a ciência. Algumas coisas, no entanto, já estão estabelecidas. 1. o vírus não tem pernas 2. o vírus não tem asas 3. quando uma curva está indo para cima, ela é ascendente 4. curva ascendente significa que o número de casos está aumentando 5. quando o número de casos está aumentando, as pessoas que circulam vão conduzir os vírus (que não têm pernas nem asas) para outros lugares e pessoas, e a curva vai ficar cada vez mais ascendente 6. o nome de quem manda abrir comércio para a rua se encher de gente na curva cada vez mais ascendente é criminoso 7. o nome de quem lamenta muito, mas é o destino de todos nós é comandante-em-chefe dos criminosos 8. se todos os brasileiros mortos pela Covid-19 até hoje fossem postos de comprido na beira da pista, uma pessoa poderia ir a cavalo do Palácio do Planalto, Brasília(DF) até Águas Lindas de Goiás(GO), escoltado por uma linha ininterrupta de cadáveres

UM DIA DE CADA VEZ, o limão e a reza

- Por ETEL FROTA Já foi obituário, hoje é receita culinária de um requinte para o paladar em dias de quarentena. Compre um único limão -siciliano, por exemplo- e tente a receita, de verdade. Ainda e sempre sob os auspícios de  Luhli, eternamente bruxa , é claro.   O LIMÃO E A REZA Valei, mãezinha do céu pois já não sei mais rezar ando bem desassistida Meu coração anda ao léu tá difícil de enfrentar as agruras desta vida É tanto amigo que morre tanta farpa que me espeta indecência que me enfeza Calada, amargo meu porre Mas sentada na sarjeta lembro que existe outra reza Um só é o ingrediente: um limão verde, graúdo vai pro freezer, bem lavado Cortado, vai co´a semente inteirinho, casca e tudo Espero ficar congelado Não tem erro, não tem nó Preparo a minha comida disponho tudo no prato como um quadro de Miró: delicinha colorida com detalhes de um mosaico Requintes de uma aquarela fica mesmo muito belo Sal ros...

UM DIA DE CADA VEZ, a tristeza

- Por ETEL FROTA Não sei vocês. Eu, choro todos os dias. O Dia Zero da minha quarentena, a véspera da Grande Compra de Supermercado, terminou com a notícia da morte trágica de uma querida amiga. Foi ali que comecei a chorar. Fazia muito tempo que andava de olhos secos, ardidos e apressados. Desde então, venho desaguando à toa. Por ela, por mim, pelos meus, pelos dela, pelos teus, pelos nossos, por nós todos, amém. Por esse mundo que olho pela janela e pela TV, esperando acordar a qualquer momento. Pela saudade das filhas, da neta, distantes. Uma, pela geografia. As outras, pela quarentena. Algumas vezes, tenho chorado por coisas bonitas. A canção do meu amigo Sonekka , por exemplo, que diz: Por todos os artistas garçons e balconistas as agências e os turistas padres, pobres, motoristas Deus dai luz aos cientistas protegei os enfermeiros os velhinhos e os enfermos força pra todos doutores chuva pros agricultores equilíbrio aos fabricantes e todos tra...

UM DIA DE CADA VEZ, o estoque

-Por ETEL FROTA Batatas, laranjas e embalagens de álcool gel higienizadas e guardadas, começamos por aqui a quarentena. Porteira fechada. A gripe do demonho , aqui, não entra. Se já tiver entrado, daqui não sai para empestear mais ninguém. Uns 5 anos atrás, eu estaria no limiar culpado da felicidade, com minhas meninas embaixo da asa, sem as noites de espera do barulhinho da chave na fechadura. Bastaria que as mensalidades estivessem em dia, para que as universidades, particulares, onde elas estudavam pensassem no resto. E o resto era mandar os alunos para o lugar mais seguro, cada um na sua casa. Reviveria os tempos felizes, em que não precisava me ocupar com o que estariam “comendo por aí”, já que refeições seriam limitadas à comidinha balanceada da mamãe, em horários combinados.   [Não que eu seja de comer com hora marcada, aliás, detesto. Mas sempre que houve necessidade de estabelecer comitê doméstico de crise, rolou uma certa ordem. Ressuscitava-se a frase: “isto a...