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Mostrando postagens com o rótulo RICARDO SILVEIRA

ZUM

Por RICARDO SILVEIRA O que eu tenho vivido nas telas de reunião. Tenho visto caras que não eram feias e boas almas com sacos lotados. Tenho ouvido gastura. Tenho visto pessoas mais gordas e cenhos mais pesados. Tenho visto sorrisos cansados, que ajudam a cansar o meu, e isso quando há. Tenho visto gente que prefere ficar atrás da cortina do dark ou do mute. Tenho ouvido teses sobre isso, até etiqueta sobre isso já tem, mas não consigo montar uma, a minha, a não ser o fato de ver nesse sumiço uma versão da liberdade de expressão que esta tecnologia da reunião remota nos dá. Tenho visto gente que está ali só a bater seu relógio de ponto. Tenho visto fundos de tela algo engraçados, mas com um humor que não pega brasa, só fumaça, feito lenha orvalhada. Tenho visto decorações pálidas no fundo e faces de ainda maior palidez na frente. Tenho notado mais pontualidade. Meu mundo pré-covid parecia menos atento a ela. Tenho notado que se quer começar logo para acabar com o telefar...

CORTE

Por RICARDO SILVEIRA Hoje, resolvi cortar o cabelo, só que na primeira pessoa. Corte, a rigor, não houve. Faxina é um termo mais adequado. Tomei essa decisão um pouco por ócio e muito por TOC. Ao aparecimento da primeira ponta enrolada, fugia para a querida biboca do seu Malachias. Como há um vírus que nos separa, o jeito foi a auto-mutilação madeixal. Adotei um estilo pragmático, o estilo denominado por mim de “laçada alicate”. Pega essa visão: junta um chumaço com a mão invertida, amassa o escalpo, abre o indicador e o médio, alicateia a cabeleira e corta o que sobrar. A parte frontal, o lado iluminado da nossa lua, é mais fácil. A parte posterior, a oculta, sabe-se lá como ficou. Mas não há problema. Cortar o próprio cabelo, em tempos de quarentena, é ato rebelde e libertário, um dos poucos que nos restam. Um vizinho, este um pouco mais arrojado, tentou aparar a cabeleira com essas máquinas. Mas errou logo na primeira curva, acentuando demais o arado capilar e teve ...

NORMA

Por RICARDO SILVEIRA Preciso falar sobre Norma. Norma é minha vassoura elétrica que foi promovida a aspirador ou, numa visão mais pessimista, um aspirador que perdeu peso e foi rebaixado a vassoura. Eu e Norma temos nos encontrado com frequência diária e matinal, enquanto o mundo faz Teleyoga Primeiro Grau. Norma trabalha em dois modos. O primeiro, mais ruidoso, é o “vamos limpar logo essa droga”. O segundo, meu predileto, é o suga-quieto, mais lento mas nem por isso menos eficiente. Suga-quieto é mais indicado especialmente se a faxina for simultânea ao Teleyoga. Norma tem um defeito. Seu saco é pequeno. Então, a cada dez minutos, é preciso abrir Norma pelo avesso e manter contato visual e tátil com o submundo de sofás e poltronas. Dejetos que, antes do corona, eu nem sabia que pudessem existir. Esse é um momento sempre difícil. Ainda mais porque sou pai de uma ovelha que me foi vendida como um golden retriever. Quem me diz que meu cão é uma ovelha é Norma e ...

LIÇÃO DE VIDA

- Por RICARDO SILVEIRA  O papo é reto. O coronão 2020 é pragmático e você tá com tempo de sobra, além de, provavelmente, ainda não ser um dos 238 mil sortudos que passaram por ele e estão com a maior riqueza dos nossos tempos: os anticorpos da Covid-19.   Fasten your sealt belts. A questão é: já fez seu testamento? Dou-lhe 1,2, 3 segundos pro friozinho na barriga passar. Isso aí galera, testamento. Um documento simples, que pode ser enviado ainda hoje ao seu advogado, por e-mail. Ou para mais advogados, vai saber quantos deles não vão estar na mira da pandemia. Testamento é aquele assunto que sabemos que é importante, muitos ligam o xapralá por alegada falta de tempo ou porque se consideram os comedores de toda criptonita universal. Assim como o tempo de muitas outras coisas, esse tempo acabou. Por isso, o ócio que esta situação nos impingiu pode ser um convite. Um chamamento a algo prático e muito útil aos seus, ainda mais saben...

2 METROS

- Por RICARDO SILVEIRA Fico pensando como e quando essa distância vai acabar. Será por um decreto da OMS? - A partir de hoje, fica abolida a distância de 2 metros entre os seres humanos. O abraço tá libertado. Aperto de mão, go ahead. Pode encostar nas coisas e nos outros. Quando isso tudo acabar, imagino, isso tudo não vai acabar. Seremos, pelo menos nesta camada de quase 8 bilhões de seres humanos, grandes vírus-deliveries para sempre. Não que já não o fôssemos. O problema é que gente só carregava viroses categoria neura-zero. Éramos grandes distribuidores de gripes, resfriados, tosses, piriris e qualquer outra coisa facilmente minimizada na farmácia da esquina. Agora, não. Somos chernobyls ambulantes. O césio 137 está ou estará em nós, parece ser apenas uma questão de tempo. Mesmo que o teste da Covid-19 dê o “você ainda não tem isso, meu filho”, tudo indica que coronado você será. Aí tem a parada dos dois metros. Depois que a OMS decretar que somos se...

E SE FOR UMA OITENTENA?

- Por RICARDO SILVEIRA Tenho pensado em algumas coisas durante essa worldtreta. Uma delas é a duração disso que se convencionou chamar de quarentena. Afegão-médio juramentado que sou, tenho a impressão de que vamos puxar uma oitentena, talvez mais. É o que eu leio por aqui e por ali. Minha fonte mais confiável é a China: se a parada começou lá em janeiro, talvez em abril eles estejam livres para sair às ruas, mesmo que ainda não livres das máscaras. Mas, e se for mais? Aqui, nas trocas de zazáps entre conhecidos, temos debatido algumas ideias, já que tempo para pensar nisso é o que nos sobra. Uma delas é bem crazy people. Criar quatro turmas globais, como se pudéssemos separar os cidadãos em 4 clusters diferentes. O número de clusters está relacionado diretamente ao número de semanas do mês. E como seria? Quando a virulência do contágio der uma boa baixada, cada turma dessas quatro seria liberada para voltar à vida que tinha. Uma delas por semana. Sinal verde d...

PENSO, LEIGO EXISTO

- Por RICARDO SILVEIRA No planeta, pandemia. Na cabeça, pandemônio. Se tem fitinha e aparelho para medir diabetes em 3 segundos, por que não tem uma pra detectar o corona igual teste de grávida? Qual é o recorde mundial de velocidade de produção de vacina depois do surgimento de um novo vírus? Já consultaram algum um pajé? O treco passa pelo ar, pela água ou pelo dinheiro? Por que tanto na Itália e Espanha e não tanto na França e Alemanha? Algum astrólogo viu um 2020 assim? É um vírus único? É o mesmíssimo vírus em todo ser-humano ou o organismo de cada ser-humano pode ter seu vírus particular? É possível que isso já circulasse, na moita, antes do primeiro chinês diagnosticado e que algo não relacionado a ele tenha catapultado a bagaça? Por que os anticorpos de gripes passadas não funcionam agora? Já fuçaram as gavetas da NASA? Tem alguém 100% imune a esse treco mesmo sem a vacina? Se o vírus fica vivo no chão por dias a fio na rua, algum tipo de fumacê ...

DEVANEIOS GEL-ALCOOLIZADOS

- Por RICARDO SILVEIRA Tenho pensado muito sobre essa gelatina benta, o álcool gel. De tudo que leio e zapeio, a prevenção disponível, além do isolamento social, ainda é lavar as mãos e usar o álcool gel. Acontece que o álcool gel tem uma vantagem. Você não pode lavar as mãos três centésimos de segundo depois de abrir a porta e pegar seu jornal, por exemplo. Com o álcool gel, dá. Não só dá como é o jeito. Por isso, desenvolvi certa adoração pela meleca salvadora. Tenho usado um mantra aqui, cujos direitos de uso estão por mim agora liberados, worldwide: tocou em algo, taca álcool gel. Repeat évribari: tocou em algo, taca álcool gel. Antes que maledicentes se adiantem: não, não tenho qualquer interesse, a não ser o humanitário, em tal ode geleco-alcoolizada. Meu interesse é que ela se espalhe, literalmente. Fico aqui, entre uma passadinha e outra desta maravilha nas mãos, pensando em ideias. Por exemplo. Os famosos marketplaces da vida bem que podiam isentar o frete...

COMO NÃO DOMINO, EU CHUTO

- Por RICARDO SILVEIRA Alguns assuntos são como bola: os craques dominam e os demais dão de bico. Abaixo, uma lista de chutes em temas que não domino. Chuto que, em pouco tempo, muitas empresas vão descobrir que sobrevivem com menos metros quadrados alugados e que parte desse custo operacional vai migrar da coluna da despesa para o resultado dos balanços. Chuto que as pessoas ganharão um pouco mais de peso, o que deixará o futuro da indústria do espelho (termo que imagino ter acabado de inventar) um pouco mais animado. Chuto que todos enfim entenderão o valor do ar livre, negociando a favor dele o tempo antes dedicado às telas do mundo mobáio. Chuto que logo haverá uma overdose de telas e seus conteúdos. Chuto que todos teremos direito ao prazer de uma hora de banho de sol. Chuto que sentiremos como uma bênção esse prazer nos queimar o coração. Chuto que pais finalmente conhecerão seus filhos. E vice-versa. Chuto que a descoberta de um, dois ou mai...