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Mostrando postagens com o rótulo CONFINAMENTO

A NOITE VAZIA DE AMPARO (Edu Muylaert)

Texto e fotos de EDUARDO MUYLAERT Veio a pandemia, a corroer as estruturas e a provocar desastres que se inscreverão por muito tempo na paisagem. Talvez os tenhamos provocado, com o desprezo pela natureza e o descaso com os mais fracos. Agora temos que conviver com o confinamento ou a morte. Amparo, estado de São Paulo, tem perto de 200 anos, 70 mil habitantes, e um lindo patrimônio histórico e ambiental. O Prefeito decretou quarentena. As pessoas estão isoladas em suas casas. Esta série, feita em 21 de abril de 2020, retrata a cidade sem a sua gente. E os tons dramáticos que parecem refletir a aflição do momento. O Jardim Público sem os casais de namorados, as ruas desertas, o prédio com luzes nas janelas, por trás de um portão que não leva a lugar nenhum. Sou grato, Amparo me acolheu no isolamento.

O NU E A ARTE

Por EDUARDO MUYLAERT     Corpos, esses objetos primeiros de todo conhecimento e de toda visibilidade, na bela frase de Georges Didi Huberman, continuam a espicaçar nossa curiosidade, a nos provocar e a nos intrigar, apesar de sua permanente exibição e mesmo exploração. Sem a presença do nu e, portanto, do modelo-vivo, na maioria das vezes uma mulher, seria impossível esboçar uma história da arte. A representação da figura humana na presença de um modelo despido vem desde a antiguidade e só foi interrompida, por influência do cristianismo, na época medieval, para ser retomada no Renascimento. Giorgio Vasari, que fundou, em 1562, em Florença, a primeira academia de arte, presidida por Michelangelo, compreendia que os estudantes tinham muito a aprender com a prática do modelo nu. O historiador de arte Kenneth Clark iniciou seu livro The Nude , de 1956, com uma distinção entre estar nu e estar despido. Estarmos despidos é estarmos privados de nossas roupas e a ...

BOCACCIO, A IGNORÂNCIA E A COVID 19

Por EDUARDO MUYLAERT Temos ouvido uma quantidade extraordinária de besteiras a respeito da pandemia de 2020, seja de gente do povo, de acadêmicos e até de chefes de Estado. Mas a ignorância não é prerrogativa contemporânea, Giovanni Bocaccio, no seu Decameron, de 1348 (acabou até virando filme de Pasolini, em 1971), já a denunciava e ironizava. Tenho conhecido, nessa quarentena, muita gente que, além de culta e inteligente, é também interessante. Entre estes, destaco os estudiosos e cientistas que descem do pedestal e das redomas para conversar conosco. Corrijo, estes que se dignam falar uma língua inteligível e se arriscam a tocar em coisas de interesse comum, em geral não vivem no confinamento da academia e nem  moram em cápsulas de falso cristal. Entre nós, Focassauros, um exemplo é o do professor J. Marcello Alves, que nos explica com simplicidade e competência coisas da ciência que poucos ousam abordar. Lembro também o médico Ricardo K., orgulho da nossa ...

UM DESPACHO DE MILÃO

Por EDUARDO MUYLAERT “Voleva lasciarlo e lui l'ha uccisa. Convivevano forzatamente per le restrizioni Covid. La donna trovata in casa. Uccisa da un colpo d'arma da fuoco. Nessuno dei due risultava contagiato” (Corrieri della Sera, 20 de Abril de 2020, 12h26) Chefe, chegou um despacho da agência Ansi, de Milão, bem agora na hora do almoço. O fato, em si, não tem nenhuma importância, mas pode dar matéria. Foi na Lombardia, numa cidadezinha. O cara matou a mulher que queria largar dele. Tiro de fuzil em pleno rosto, calibre 12. Estavam convivendo só por causa da pandemia. Crime passional sempre vende jornal. Mando bala? Ouçamos a sabedoria do grande mestre Roland Barthes, que sempre nos ilumina: “O assassinato político é pois, sempre, por definição, uma informação parcial; o fait divers, pelo contrário, é uma informação total, ou mais exatamente, imanente; ele contém em si todo seu saber: não é preciso conhecer nada do mundo para consumir um fait divers; ele não remete form...

MOMENTOS DRAMÁTICOS

  (This photograph from Thomas Hoepker is available at magnumphotos.com ) EDUARDO MUYLAERT A mulher com a blusa colorida e cheia de sacolas caminhava pela beira da estrada, quebrando a expectativa da paisagem. Por que estaria fora de casa, quando quase todos estão confinados por causa da pandemia? Pode ser que tenha ido comprar mantimentos para alimentar a família, terá filhos? Parece ainda jovem, mantém a cabeça erguida e enfrenta sem temor os percalços do trajeto. Fazia quinze dias que eu não saia de casa, entre medroso e obediente. Lembrei do avô médico, que morreu muito cedo, quase não convivi com ele. Mas sei que nas epidemias do começo do século XX, ou quando a aviação de Getúlio ameaçava bombardear São Paulo, procurava pôr os filhos a salvo no interior. Para entrar em Morungaba, passagem obrigatória para Amparo e Serra Negra, foi preciso dar a testa ao termômetro. Protegi a boca e o nariz, e a enfermeira pediu, não sem um sorriso, pelo amor de Deus para eu não esp...

O VÍRUS DO DIVÓRCIO

- Por EDUARDO MUYLAERT Uma preocupação repentina começou a incendiar o mundo: o corona vírus vai acabar com os casamentos? Claro, a questão só se põe aos que esperam sobreviver à provação.  E os solteiros têm outro tipo de problemas, que também não são pequenos. O primeiro alerta veio do chinês Global Times. A cidade de Xian estaria experimentando um pico de divórcios, como repercussão do COVID-19. Os cartórios reabriram em 1° de março e precisaram criar um sistema de agendamento por telefone, para dar conta desse novo surto. Os conflitos subjacentes não resistiram a um mês de confinamento. Alguns casais, entretanto, depois se arrependeram decisão tomada de impulso e querem voltar a se casar. Mesmo os bovinos, em estado de confinamento, sofrem de violação de seu espaço, o que resulta em aumento de agressividade e estresse. Ratos de laboratório passaram a engordar, perdem imunidade, se entediam e passam a fazer sexo acima da média. Parece que os humanos em monogâmia forçada...