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GULODICE (Edu)

  por — Eduardo Muylaert       Fui traído pela memória e pela minha geladeira. Deixei sob sua zelosa guarda um precioso potinho de ovas de esturjão. Louco por uma segunda vez, abri o pote e dei de cara com a gosma verde que maculava o produto original. O sugestivo aroma de penicilina foi decisivo para o enjoo. Claro, a culpa foi minha, não respeitei a reiterada advertência. Certas coisas não têm volta, depois de abertas, devem ser consumidas de imediato. Ou descartadas, sem cerimônia e sem remorso. O prazer, como a história para Marx, pode se repetir como tragédia ou como farsa. A iguaria já cumprira o seu papel. Naquela noite inesquecível, com cenas de filme francês, as ovas pareciam caviar, o espumante fez as vezes de champanhe. No embalo, faltou o ponto final, não tive peito para o clássico “ the end ”.

A NOITE VAZIA DE AMPARO (Edu Muylaert)

Texto e fotos de EDUARDO MUYLAERT Veio a pandemia, a corroer as estruturas e a provocar desastres que se inscreverão por muito tempo na paisagem. Talvez os tenhamos provocado, com o desprezo pela natureza e o descaso com os mais fracos. Agora temos que conviver com o confinamento ou a morte. Amparo, estado de São Paulo, tem perto de 200 anos, 70 mil habitantes, e um lindo patrimônio histórico e ambiental. O Prefeito decretou quarentena. As pessoas estão isoladas em suas casas. Esta série, feita em 21 de abril de 2020, retrata a cidade sem a sua gente. E os tons dramáticos que parecem refletir a aflição do momento. O Jardim Público sem os casais de namorados, as ruas desertas, o prédio com luzes nas janelas, por trás de um portão que não leva a lugar nenhum. Sou grato, Amparo me acolheu no isolamento.