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Mostrando postagens com o rótulo EDUARDO MUYLAERT

A COISA NÃO FUNCIONA

  por — Eduardo Muylaert   Ela se percebeu um pouco ridícula, a torradeira impassível e ela a olhar desconsolada. Se ele estivesse aqui, dava um jeito, se fosse um celular dava reset . Nunca se conformou, os aparelhos deviam vir em português, é lei, não é? Tostar o pão vem de outra era, mais calorosa. As primeiras máquinas queimavam as pontas dos dedos. Dez anos depois, o pão se pôs a saltar, como a rã do Matsuo Bashô a perturbar as águas do velho tanque com seu furuike ya kawazu tobikomu mizu no oto. Logo mais surgiriam as três maravilhas que moldaram uma civilização: a torradeira automática, o pão de forma em fatias e o breakfast, incluindo ovos com bacon e uma quantidade extraordinária de calorias. Não havia lar sem torradeira na América do século XX. Na casa de Portinari há uma máquina de café expresso, cilindro brilhante de aço com um só pistão. Maria cresceu com o aroma do café passado no coador, a mãe botava bastante açúcar, passou a ver Candi...

GULODICE (Edu)

  por — Eduardo Muylaert       Fui traído pela memória e pela minha geladeira. Deixei sob sua zelosa guarda um precioso potinho de ovas de esturjão. Louco por uma segunda vez, abri o pote e dei de cara com a gosma verde que maculava o produto original. O sugestivo aroma de penicilina foi decisivo para o enjoo. Claro, a culpa foi minha, não respeitei a reiterada advertência. Certas coisas não têm volta, depois de abertas, devem ser consumidas de imediato. Ou descartadas, sem cerimônia e sem remorso. O prazer, como a história para Marx, pode se repetir como tragédia ou como farsa. A iguaria já cumprira o seu papel. Naquela noite inesquecível, com cenas de filme francês, as ovas pareciam caviar, o espumante fez as vezes de champanhe. No embalo, faltou o ponto final, não tive peito para o clássico “ the end ”.

LE FRISSON DE PARIS (Edu)

par — Eduardo Muylaert Un frisson. Chaque fois que j’arrive à Paris c’est comme si c’était la première et la dernière fois. D’abord il y a eu le rêve, le songe de la ville dite Lumière, cliché plus qu’imparfait. Non, ce n’est pas la bohème de Montmartre, ses maisons closes, ses spectacles de travestis, qui m’ont fait venir. Ce sont plutôt les mémoires de Henry Miller et Anaïs Nin, Man Ray et Lee Miller, Picasso et Dora Maar, où bien Bataille et Dora Maar, ou encore le docteur Jacques Lacan et les électrochocs qui ont enlevé toute joie de sa cliente Dora Markovitch. Sartre et Simone, on peut toujours les lire. Barbara et la Greco, on peut toujours les entendre. Le quartier Latin, on peut toujours le parcourir, même si ce n’est plus celui de jadis. Mais pour connaître Paris il faut voir tomber la pluie qui remplit de reflets les rues, les trottoirs et la Seine, mouille la tête des passants et fait surgir les parapluies qui se frôlent agressifs ou tendres, tout...

GASPAR E A LIVRARIA (Edu)

por — Eduardo Muylaert Você não imagina o que aconteceu com o Gaspar, sabe o Gaspar da livraria? Ele costumava ficar até tarde, solteiro, mora sozinho, não tem muitos amigos. É, na Livraria do Fórum, ali perto da Praça João Mendes, atrás do velho Palácio da Justiça, por isso tem esse nome. Não, não são livros jurídicos, tem uns também, mas é mais um sebo que tem de tudo, livros embolorados, enciclopédias antigas, revistas dos anos 50, tipo Manchete, Cruzeiro, histórias em quadrinhos. Eu teria medo de sair sozinho por ali tarde da noite, tem todo tipo de malucos, alcoólatras, drogados, gente que dorme na rua. Mas ele não ligava, todo mundo saía às seis da tarde, baixavam a porta de ferro, aí ele se aboletava numa poltrona cheia de ácaros, escolhia um livro ao acaso e mergulhava até sentir sono. Só então ia pegar um ônibus na Praça da Bandeira para voltar para sua quitinete na Nove de Julho. Gaspar sempre foi destemido, mais de uma vez uma dessas fi...

Lendo meu jornal (EM)

Sentei-me num café da Praça Vermelha, na única vez em que fui a Moscou. Mesmo sem entender patavina, abri solene o Pravda , era um sábado de sol. O rapaz que me servia mostrou discretamente uma notícia e sussurrou, arranhando um espanhol: no túmulo de Stalin foi achado um livro de poesias, era Maiakovski, mas a capa indicava o Capital. Em Paris por sua vez, agora no Café de Flore, também era um sábado de sol, abri encantado o Libération e descobri que tinham visto Jean Genet andando distraído pelas margens do Sena. No Rio de Janeiro, também num sábado de sol, abri o primeiro jornal que encontrei sobre o balcão. No segundo caderno fiquei triste com a manchete: São Sebastião declarou que não volta nunca mais.

NO TÚMULO DO POETA RENÉ CREVEL (edu)

Um poema em prosa de EDUARDO MUYLAERT Da minha casa na avenue de Chatillon que hoje é a avenue Jean Moulin eu podia ter ido a pé em pouco tempo ao descuidado cemitério de Montrouge Acabei nunca indo procurar — na quadra dezenove o túmulo discreto de uma família burguesa singelo granito rosa onde repousam serenos os restos do inquieto poeta René Crevel Se não dou certo em nada me mato — tinha dito leal, cumpriu a promessa — só mais tarde acabou reconhecido cultuado pranteado como poeta e escritor surrealista A vida teve cheia de intempéries tinha ainda catorze anos quando a mãe que só fazia blasfemar contra o cadáver o arrastou para ver o pai dependurado Sem ilusões. Fazia amor com homens e mulheres vivia com a cruel tuberculose — a peste branca e tinha amigos em diversos sanatórios além do peito, doíam muito os rins e a vida Tinha uma amante argentina, —   Condessa Cuevas de Vera a quem deixou a última mensagem ...

O COLAR DE BETSABÉIA (edu)

  Por — EDUARDO MUYLAERT A primeira vez que o vi, fiquei totalmente fascinado. Eu tinha 26 anos, fazia uma pós em história natural em Nova Iorque, o dinheiro só dava para refeições ligeiras na cantina da faculdade. Uma amiga me mostrou a joia num catálogo, soube que estava, afinal, ao alcance de todo mundo.   Claro, nunca é para “todo mundo”, só para quem pode, e eu, efetivamente, não podia, não naquele bendito ano 2000, mesmo tendo sobrevivido ao “bug do milênio”. O mundo, felizmente, não acabara. Ainda não. A peça parecia, mal comparando, um exótico colar de índios da América Central, mas com um distintivo toque art déco . Eram legítimos tubos de coral, entremeados de contas de turquesa e ônix, tudo combinado com pequenos diamantes, numa corrente de platina e ouro. Nem me   interessei pelo preço, não era para o meu bico mesmo, eu não pertencia àquele mundo. Fiquei me perguntando, porém:   por que uns têm tanto, e outros quase nada? O dinheir...

ONDE LEIO O MEU JORNAL (Edu)

  por — Eduardo Muylaert Gosto de ler o Globo olhando o mar do Leblon nos quiosques da calçada o coco com muita água invejo os que dão conta de driblar vento e areia ler tranquilos o diário na barraca em pleno sol distraídos nem reparam nos gritos:  — mate leão nos sacos de biscoito globo e nas bundas [e peitos] ao redor Gosto de ler o Guardian no terrasse bar da Tate Modern level 1 do Blavatnik Building depois ver uma exposição [qualquer uma] Em São Paulo tanto faz leio por alto o Estadão [tão cioso] aí mergulho na Folha [que se acha tão moderna] mais importante o expresso [sem falar no pão francês] Em Paris, no terraço de um café o Flore, o Deux Magots, o Tabac da esquina, começo pelo alegre Figaro, leve e conservador, aí ataco o Le Monde, esse sim é de rigor Em Milão, ou mesmo em Roma, sempre o Corriere dela Sera diante de uma bela chiesa a qual encaro de esguelha Agora viajo mais [muito mai...

Félix Faure, Homem e Barco

James Womack – tradução Eduardo Muylaert [Original publicado em maio de 2020 na Literary Review – Londres] Ele queria ser César, mas só foi Pompeu. Neste ano, 16 de fevereiro (mesma coisa todo ano, James), me dou conta da morte do presidente da França, Félix Faure, no ano mil oitocentos e noventa e nove, de grave apoplexia, enquanto recebia gratificação oral de sua amante, Marguerite Steinheil. Um festival apropriado e alternativo: orgasmo/morte, tão perto do Dia dos Namorados. Poucos anos após a morte de Faure, em mil novecentos e oito, President Félix Faure , um barco francês de quatro velas, naufragou na costa da Nova Zelândia. Faure lançou botes salva-vidas que chegaram à terra.  Ninguém morreu; a ilha não era deserta. Havia uma cabana, algumas provisões não muito antigas. Logo mataram albatrozes (‘longe de serem saborosos’) e depois dos albatrozes, os pinguins. Os pássaros ficaram logo traumatizados: ...

MINDFULNESS

Por EDUARDO MUYLAERT — Oi, que bom que você veio! — Por quê? Você achou que eu não vinha? — Não, claro que não. É que é a primeira vez que te convido, custei a tomar coragem. — Por quê? Você pensou que eu ia te dar mole? — Não, claro que não. Super normal tomar um chope e bater um papo. Só queria te conhecer melhor, afinal estamos sempre com outras pessoas. — Não estou acostumada com essa coisa de happy hour , sei que é moda, mas sou mais caseira. Não saio muito mesmo. — Então! As pessoas que não agitam muito costumam ser as mais interessantes. Têm vida própria, pensam por si mesmas. — Aliás, odeio chope, cerveja, tudo. Pode pedir uma caipirinha de limão para mim, pouco açúcar, muito gelo. — Vodca ou cachaça? — Vodca, claro, está me achando com cara de cachaceira? — Adorei esse seu lenço azul, valoriza o rosto. — Pode parar, se é para vir com conversa mole, suspende a caipirinha e eu estou indo. — Não, pelamordedeus, não me leve a mal. Só fiquei impressio...

DE PERNAS PARA O AR (Edu)

Por EDUARDO MUYLAERT Joaquim Fernandes era um rapaz tímido, não fazia sucesso com as mulheres, também não era bonito nem feio, talvez um pouco sem graça. Não combinava com carnaval. Nos bailes se tornava um chato, enchia a lata e desandava a falar besteiras, ninguém aguentava. Joaquim não se via enturmado na folia, queria mesmo era ter uma namorada, nem precisava ter beleza ou outras qualidades, só tinha que ter pernas bonitas. Sim, acreditem, essa era a única exigência de Joaquim Fernandes, uma espécie de fetichismo que nunca escondeu. Todos os anos se renovavam as esperanças de Joaquim no caminho do clube Caiçara, o melhor da cidade. Quem sabe dessa vez vai; tinha apostado aos 14, 15, 16 e 17. Agora já era maior de idade, ia jogar todas as fichas. De fato, logo ficou vidrado numa morena não muito grande, nem chegou a reparar no rosto, tão distraído estava com as pernas sinuosas, em tons que tentou definir como uma mistura delicada de sépia, rosa, e um pouco de our...