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Mostrando postagens com o rótulo PANDEMIA

A NOITE VAZIA DE AMPARO (Edu Muylaert)

Texto e fotos de EDUARDO MUYLAERT Veio a pandemia, a corroer as estruturas e a provocar desastres que se inscreverão por muito tempo na paisagem. Talvez os tenhamos provocado, com o desprezo pela natureza e o descaso com os mais fracos. Agora temos que conviver com o confinamento ou a morte. Amparo, estado de São Paulo, tem perto de 200 anos, 70 mil habitantes, e um lindo patrimônio histórico e ambiental. O Prefeito decretou quarentena. As pessoas estão isoladas em suas casas. Esta série, feita em 21 de abril de 2020, retrata a cidade sem a sua gente. E os tons dramáticos que parecem refletir a aflição do momento. O Jardim Público sem os casais de namorados, as ruas desertas, o prédio com luzes nas janelas, por trás de um portão que não leva a lugar nenhum. Sou grato, Amparo me acolheu no isolamento.

SUÉCIA E SÚCIA

–Por J. MARCELO ALVES Nesta quinta (14), ao ser questionado sobre a diferença na mortalidade causada pela Covid-19 no Brasil e na Argentina, o elemento que ocupa a cadeira de Presidente da República no Brasil desafiou: "É só você fazer a conta por milhão de habitantes" —aparentemente, e como de costume, ele não sabia do que falava ou não pensou antes de falar. Provavelmente ambos. Alvo fácil, sitting duck como se diz em inglês; imediatamente apareceram gozações e artigos explicando por que a comparação usando a métrica normalizada por população é ainda pior para o governo brasileiro do que usar os números absolutos. Ficam ainda mais óbvias sua incompetência e falta de preparo. Como ilustrado no gráfico acima, com dados desta semana, a quantidade de mortes por Covid-19 no Brasil é mais de oito vezes superior à argentina —lembrando que nuestros hermanos implementaram políticas de restrição à movimentação e às atividades econômicas muito mais precoces e severas que a...

ESCUTA, POIS ELES SABEM

–Por J. MARCELO ALVES Aconteceu há pouco uma transmissão ao vivo pelo YouTube, no Canal USP e com moderação do jornalista Herton Escobar , de cinco palestras curtas mais sessão de perguntas do público (link) sobre os desafios científicos e como vencer a pandemia. Tudo feito remotamente, claro, incluindo as mensagens da plateia virtual. O evento teve uma hora e meia de duração ao todo, foi seguido até o fim por cerca de mil e quinhentas pessoas, segundo o contador da plataforma, e vale a pena ver, mesmo que por vezes a linguagem dos palestrantes tenha sido mais técnica. Isso não deve ter incomodado boa parte da audiência que se manifestava no quadro de mensagens, uma vez que muitos se identificavam como parte de universidades e centros de pesquisa, e entre eles muitos nomes de pessoas conhecidas no meio científico. Houve até a ilustre presença no quadro de mensagens de um robô (ou troll de carne e osso, quem sabe?) bolsonarista e anti-isolamento, a Lina —não me lembro do sobr...

ORAÇÃO PELA METADE

Por EDUARDO MUYLAERT Dai-me alguma profundidade Mas não o oco do poço Dai-me alguma serenidade Mas não a calma do tolo Dai-me alguma densidade Mas não o peso do ouro Dai-me alguma caridade Água, pão, talvez um ovo Dai-me alguma piedade Para sentir pena do outro Dai-me também uma maldade Para ficar bem com o tinhoso Dai-me alguma humildade Para não perder o pescoço Dai-me alguma santidade Mas não tirai o meu gozo Dai-me alguma gravidade Mas não o lugar do morto Dai-me alguma eternidade Mas não apresse o meu voo

BOCACCIO, A IGNORÂNCIA E A COVID 19

Por EDUARDO MUYLAERT Temos ouvido uma quantidade extraordinária de besteiras a respeito da pandemia de 2020, seja de gente do povo, de acadêmicos e até de chefes de Estado. Mas a ignorância não é prerrogativa contemporânea, Giovanni Bocaccio, no seu Decameron, de 1348 (acabou até virando filme de Pasolini, em 1971), já a denunciava e ironizava. Tenho conhecido, nessa quarentena, muita gente que, além de culta e inteligente, é também interessante. Entre estes, destaco os estudiosos e cientistas que descem do pedestal e das redomas para conversar conosco. Corrijo, estes que se dignam falar uma língua inteligível e se arriscam a tocar em coisas de interesse comum, em geral não vivem no confinamento da academia e nem  moram em cápsulas de falso cristal. Entre nós, Focassauros, um exemplo é o do professor J. Marcello Alves, que nos explica com simplicidade e competência coisas da ciência que poucos ousam abordar. Lembro também o médico Ricardo K., orgulho da nossa ...

A TRAMELA E O MANCEBO

  Por EDUARDO MUYLAERT  

QUARENTENA, DIA 41

Por DANIELA MARTINS 25/4 - QUARENTENA, DIA 41. Ontem foi um dia longo. Depois da demissão do ministro da Justiça e do pronunciamento surrealista do presidente , ainda vimos Moro mandar para o Jornal Nacional prints de conversas suas com Bolsonaro e com a deputada e afilhada Carla Zambelli, que provariam que o presidente queria mesmo interferir na PF e que ele, Moro, não teria pedido o cargo no STF. É interessante acompanhar a elasticidade do entendimento de Moro sobre aceitar ou não conversas de WhatsApp como provas. Contra seus adversários, são válidas. Contra ele mesmo, como as reveladas pela série de reportagens da Vaza Jato, são inadmissíveis. E se Bolsonaro questionasse a veracidade do print, como fez Moro naquela ocasião? A nação acordou de ressaca e passou o dia acompanhando os posts dos eleitores arrependidos de Bolsonaro. Os lavajatistas ficaram furiosos com o presidente. Eu tive vontade de perguntar a cada um deles que poção mágica eles beberam para ter escutado cad...

UM DESPACHO DE MILÃO

Por EDUARDO MUYLAERT “Voleva lasciarlo e lui l'ha uccisa. Convivevano forzatamente per le restrizioni Covid. La donna trovata in casa. Uccisa da un colpo d'arma da fuoco. Nessuno dei due risultava contagiato” (Corrieri della Sera, 20 de Abril de 2020, 12h26) Chefe, chegou um despacho da agência Ansi, de Milão, bem agora na hora do almoço. O fato, em si, não tem nenhuma importância, mas pode dar matéria. Foi na Lombardia, numa cidadezinha. O cara matou a mulher que queria largar dele. Tiro de fuzil em pleno rosto, calibre 12. Estavam convivendo só por causa da pandemia. Crime passional sempre vende jornal. Mando bala? Ouçamos a sabedoria do grande mestre Roland Barthes, que sempre nos ilumina: “O assassinato político é pois, sempre, por definição, uma informação parcial; o fait divers, pelo contrário, é uma informação total, ou mais exatamente, imanente; ele contém em si todo seu saber: não é preciso conhecer nada do mundo para consumir um fait divers; ele não remete form...

SALVE, JORGE!

Por DANIELA MARTINS Em plena escalada da curva de infecções e mortes, os governantes defendem publicamente que a quarentena seja relaxada.  O argumento é que não se pode sacrificar a economia. Mas a discussão aqui é, na verdade, como achamos sensato gastar o dinheiro, o que é preciso fazer para encontrarmos os recursos, se admitimos ou não mudar as prioridades.  Socialmente, aceitamos que algumas vidas valem menos do que outras. Sempre convivemos com milhares de mortes por fome, abandono e miséria, por exemplo, mesmo sabendo que o Brasil está longe de ser um país pobre.  Gritamos contra programas de transferência de renda para os miseráveis, mas nunca saímos às ruas contra o auxílio-moradia dos juízes, que recebem o teto salarial máximo do funcionalismo público. Voltando ao coronavírus, temos 27.500 leitos de UTI na rede pública, utilizada por 163 milhões de brasileiros, e 27.600 na rede privada, acessíveis aos 47 milhões que podem pagar por um plan...

A PESTE DO SÉCULO XXI

 - Por EDUARDO MUYLAERT   Não temos tempo de chorar a morte Está na hora de lavar os pratos Deixa o coveiro carregar os corpos Vá lamentar a sua própria sorte Fui buscar na estante meu volume de L’Oeuvre au Noir , de Marguerite Yourcenar. Lembrava que tinha algo a ver com a Peste Negra. A Idade Média talvez pudesse ajudar a entender o que acontece conosco no ano da graça de 2020. Achei também a tradução do poeta Ivan Junqueira, sexta edição, Nova Fronteira, 2018. Sorte a nossa, pois na França a obra está esgotada, e nos Estados Unidos um exemplar pode custar quase mil dólares. Aprende-se muito com ele. “ Martinho fez distribuir a sopa aos pobres sob o pórtico da lgreja de São Gedeão; a caridade cristã e o medo de que eclodisse alguma arruaça inspiravam ao burguês essas espécies de esmolas. Tais males, no entanto, nada mais eram do que a antecipação de uma calamidade infinitamente mais terrível. Vinda do Oriente, a peste entrara na Alemanha pela Boêmi...

OBRIGADA PELA LIGAÇÃO

—  Por SOLANGE REIS O celular tremeu. Decidi não atender, por mais adorável que Perth seja. Não conheço ninguém que more lá. Trinta segundos depois, voltou a estremecer. Vencida pela curiosidade, atendi. —  Olá, aqui é Anna Kjestrup, da Etihad. Estou ligando para falar de sua passagem aérea para Madri. A voz tinha aquele tom impessoal de telemarketing e emendava uma palavra na outra, desafiando minha capacidade cognitiva para o inglês australiano. Era preciso escolher uma data nova que fosse até 30 de junho. O sistema não podia ficar em aberto.   Tal qual a humanidade, a máquina precisa de respostas. — Não faço a menor ideia de quando vou viajar. Sabe...tem uma pandemia por aí. Anna insistiu rispidamente. Sete de junho! Sete de junho! — É uma ótima data. O número sete traz sorte.   Que bom que ela gostou. A moça levou um minuto para acalmar o sistema e transferir a ansiedade deles dois para mim. Antes de eu ouvir que ...

QUARENTENA, DIA 25

Por DANIELA MARTINS 09/4 - QUARENTENA, DIA 25. Não sei se a cigana Yoranka previu a pandemia nas cartas e nos búzios. Os astrólogos já diziam que a grande conjunção entre Saturno, Júpiter e Plutão ia dar uma sacudida forte em 2020, mas ninguém se atreveu a pensar no cenário atual. Não que eu tenha visto, pelo menos. Saí para comprar ovos de Páscoa pros meus filhos e foi bem estranho ver o mercado sem aquele monte de embalagens metálicas penduradas no teto. Nem deu pra escolher muito, eram três as opções disponíveis. Imagino que a produção das fábricas tenha sido interrompida, talvez. Como tudo mais. Impossível não pensar em como é óbvio que aquela quantidade absurda de ovos de Páscoa era completamente desnecessária. Por outro lado, aquele excesso de ovos e de qualquer outra coisa que costumávamos consumir sem pensar muito até o mês passado gera emprego e renda para milhares de trabalhadores. Estruturamos assim o nosso mundo “civilizado”. A situação de confinamento é cansati...

A MEXERICA BÚLGARA

- Por EDUARDO MUYLAERT Fantasia narrativa de um domingo de quarentena Houve um tempo em que a gente podia viajar e ver o mundo. Agora só nos restam lembranças e fantasias. Nunca vou esquecer da hospitalidade eslovena. A generosa acolhida apagou qualquer infortúnio do caminho. As decantadas surras do passado esmaeceram. Naveguei vagarosamente por águas eslavas. Escalei gostosamente certas elevações centro-europeias. Degustei longamente a mexerica búlgara. Não sei que língua falamos, mas fiz muitas vezes o caminho de Santiago que leva de Praga a Budapeste, idas e voltas, idas e vindas. No Castelo, fui Kafka, fui barata e fui processo. Ah, o Castelo.  Às vezes passava por Viena, deferência aos tabus do Dr. Freud. Na capital da Hungria me transformei em Robert Capa, o fotógrafo sedutor que deixou muitas mulheres chorando quando explodiu. Não, não morri, muitas e muitas vezes ressuscitei. Nem percebi quando acabaram minhas forças. Na manhã seguinte, não houve qualquer queixa, ...