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Lendo meu jornal (EM)

Sentei-me num café da Praça Vermelha, na única vez em que fui a Moscou. Mesmo sem entender patavina, abri solene o Pravda , era um sábado de sol. O rapaz que me servia mostrou discretamente uma notícia e sussurrou, arranhando um espanhol: no túmulo de Stalin foi achado um livro de poesias, era Maiakovski, mas a capa indicava o Capital. Em Paris por sua vez, agora no Café de Flore, também era um sábado de sol, abri encantado o Libération e descobri que tinham visto Jean Genet andando distraído pelas margens do Sena. No Rio de Janeiro, também num sábado de sol, abri o primeiro jornal que encontrei sobre o balcão. No segundo caderno fiquei triste com a manchete: São Sebastião declarou que não volta nunca mais.

NO TÚMULO DO POETA RENÉ CREVEL (edu)

Um poema em prosa de EDUARDO MUYLAERT Da minha casa na avenue de Chatillon que hoje é a avenue Jean Moulin eu podia ter ido a pé em pouco tempo ao descuidado cemitério de Montrouge Acabei nunca indo procurar — na quadra dezenove o túmulo discreto de uma família burguesa singelo granito rosa onde repousam serenos os restos do inquieto poeta René Crevel Se não dou certo em nada me mato — tinha dito leal, cumpriu a promessa — só mais tarde acabou reconhecido cultuado pranteado como poeta e escritor surrealista A vida teve cheia de intempéries tinha ainda catorze anos quando a mãe que só fazia blasfemar contra o cadáver o arrastou para ver o pai dependurado Sem ilusões. Fazia amor com homens e mulheres vivia com a cruel tuberculose — a peste branca e tinha amigos em diversos sanatórios além do peito, doíam muito os rins e a vida Tinha uma amante argentina, —   Condessa Cuevas de Vera a quem deixou a última mensagem ...