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Mostrando postagens com o rótulo CORONAVIRUS

QUARENTENA, DIA 58

Por DANIELA MARTINS 12/5 - QUARENTENA, DIA 58. E chega o dia em que a gente começa a receber notícias da morte dos amigos. É assim, sem aviso prévio, no meio da tarde, no meio da cara. Cleber passou mal na quarta-feira e foi internado. O coronavírus o levou hoje, junto com outros 880 brasileiros. Rápido assim, ninguém nem soube da doença. Ele foi meu colega de turma na faculdade de museologia, lá no início da década de 90. A palavra que o definia era alegria. O tempo passou e nos reencontramos pelas redes sociais, a turma toda. Cada um mais diferente do que o outro, a maioria trabalhando em outras áreas, assim como eu. Cleber continuava com a mesma alegria da juventude, e é assim que vamos nos lembrar dele. E também nos lembraremos do olhar sensível que ele expressava através de belas fotografias. Tomo a liberdade de trazer algumas para este diário, como uma homenagem. Em meio às fotos, ele costumava postar de vez em quando uma frase direta, em fundo preto: FORA BOLSONARO...

ESCUTA, POIS ELES SABEM

–Por J. MARCELO ALVES Aconteceu há pouco uma transmissão ao vivo pelo YouTube, no Canal USP e com moderação do jornalista Herton Escobar , de cinco palestras curtas mais sessão de perguntas do público (link) sobre os desafios científicos e como vencer a pandemia. Tudo feito remotamente, claro, incluindo as mensagens da plateia virtual. O evento teve uma hora e meia de duração ao todo, foi seguido até o fim por cerca de mil e quinhentas pessoas, segundo o contador da plataforma, e vale a pena ver, mesmo que por vezes a linguagem dos palestrantes tenha sido mais técnica. Isso não deve ter incomodado boa parte da audiência que se manifestava no quadro de mensagens, uma vez que muitos se identificavam como parte de universidades e centros de pesquisa, e entre eles muitos nomes de pessoas conhecidas no meio científico. Houve até a ilustre presença no quadro de mensagens de um robô (ou troll de carne e osso, quem sabe?) bolsonarista e anti-isolamento, a Lina —não me lembro do sobr...

QUARENTENA, DIA 50

Por DANIELA MARTINS 04/5 - QUARENTENA, DIA 50. Vi uma cidade de pessoas mascaradas por força da lei. Vi cariocas pedalando, caminhando na orla e até mesmo tomando cerveja de máscaras, porque sempre se dá um jeito pra tudo aqui no Rio. Da entrada do Vidigal, a vista é de tirar o fôlego, uma beleza que resiste à urbanização eternamente desleixada da Cidade Maravilhosa. Às minhas costas, casas empilhadas e erguidas sobre uma encosta íngreme desafiam qualquer cálculo de engenharia e a própria lei da gravidade. Nem mesmo a urbanização desleixada chegou ali, mas até pra isso se dá um jeito. Caminhei até o ponto em que está bloqueada a ciclovia que desabou três vezes e matou duas pessoas. O absurdo do absurdo do absurdo. Estava com os tênis errados e ganhei três bolhas nos pés e uma vontade de chorar. O coronavírus levou Aldir Blanc, que teve coragem de desafiar a ditadura com versos, que teve coragem de desafiar o tempo e dizer “ele adormece as paixões, eu desperto”. A letra de...

QUARENTENA, DIA 36

Por DANIELA MARTINS 20/4 - QUARENTENA, DIA 36. Hoje eu limpei minha casa inteira. Varrer e passar pano em cada cantinho dá uma sensação de segurança durante a pandemia. Mas eu sei que é só um conforto psicológico, porque o vírus está fazendo um estrago verdadeiro lá fora. As últimas 24 horas registraram 383 mortes no Brasil. Depois, o Ministério da Saúde ressuscitou alguns e corrigiu o número para 113. De todo jeito, é muita gente, impossível não ficar triste. E também apavorada. Em São Paulo, mais da metade dos infectados é mulher e tem menos de 50 anos. Não é nada confortável saber que me encaixo neste grupo e que, portanto, corro risco efetivo de ser contaminada. A gata pulou dentro da máquina de lavar enquanto eu pegava as roupas no banheiro. Escutei o barulho e os miados, cheguei a tempo de ver o bicho com carinha aflita, tentando escalar o tambor de metal escorregadio. Estava desligada, por sorte. Me lembrei de uma visita que fizemos à minha irmã e vimos um aviso estr...

OS ASTROS MENTEM

Illustration by Miguel Porlan, The New Yorker. -Por SOLANGE REIS Virginiana com ascendente em Virgem, indisciplina é meu nome do meio. Uma incoerência astral fácil de explicar. Astrologia não tem muita lógica. E quando nasci, exatos cinco meses depois do golpe militar pela "liberdade", os astros deviam estar bem confusos. Faço a digressão para confessar que não consigo escrever um diário. Como o faz Daniela, focassaura incansável na quarentena cheia de filhos, paixão, quitutes e Brasis. Se eu tentasse, faria um devezemquandário. Um dia, ia ter detalhes. Noutro, nada. No terceiro, linhas preguiçosas. No quarto, o epitáfio da curta jornada. Mesmo assim, arrisco um resumo do meu aquartelamento. Os dias da semana têm sido de muito trabalho. Bem diferente de dezenas de milhões de desempregados que engrossam a massa dos desesperados. Todos os meus dias  —os  úteis e os ainda melhores —  têm episódios de uma série de espionagem francesa ou filmes. Alg...

A PESTE DO SÉCULO XXI

 - Por EDUARDO MUYLAERT   Não temos tempo de chorar a morte Está na hora de lavar os pratos Deixa o coveiro carregar os corpos Vá lamentar a sua própria sorte Fui buscar na estante meu volume de L’Oeuvre au Noir , de Marguerite Yourcenar. Lembrava que tinha algo a ver com a Peste Negra. A Idade Média talvez pudesse ajudar a entender o que acontece conosco no ano da graça de 2020. Achei também a tradução do poeta Ivan Junqueira, sexta edição, Nova Fronteira, 2018. Sorte a nossa, pois na França a obra está esgotada, e nos Estados Unidos um exemplar pode custar quase mil dólares. Aprende-se muito com ele. “ Martinho fez distribuir a sopa aos pobres sob o pórtico da lgreja de São Gedeão; a caridade cristã e o medo de que eclodisse alguma arruaça inspiravam ao burguês essas espécies de esmolas. Tais males, no entanto, nada mais eram do que a antecipação de uma calamidade infinitamente mais terrível. Vinda do Oriente, a peste entrara na Alemanha pela Boêmi...

NORMA

Por RICARDO SILVEIRA Preciso falar sobre Norma. Norma é minha vassoura elétrica que foi promovida a aspirador ou, numa visão mais pessimista, um aspirador que perdeu peso e foi rebaixado a vassoura. Eu e Norma temos nos encontrado com frequência diária e matinal, enquanto o mundo faz Teleyoga Primeiro Grau. Norma trabalha em dois modos. O primeiro, mais ruidoso, é o “vamos limpar logo essa droga”. O segundo, meu predileto, é o suga-quieto, mais lento mas nem por isso menos eficiente. Suga-quieto é mais indicado especialmente se a faxina for simultânea ao Teleyoga. Norma tem um defeito. Seu saco é pequeno. Então, a cada dez minutos, é preciso abrir Norma pelo avesso e manter contato visual e tátil com o submundo de sofás e poltronas. Dejetos que, antes do corona, eu nem sabia que pudessem existir. Esse é um momento sempre difícil. Ainda mais porque sou pai de uma ovelha que me foi vendida como um golden retriever. Quem me diz que meu cão é uma ovelha é Norma e ...

O QUE VOCÊS TÊM A PERDER?

- Por J MARCELO ALVES Na coletiva do último domingo (4), o presidente estadunidense mais uma vez promoveu o uso de um medicamento com poucos testes de qualidade e evidências controversas de sucesso contra a Covid-19. Dentre as coisas que não se espera ouvir de um chefe de estado, em especial o do país mais poderoso e influente do mundo, ele disse novamente que as pessoas deveriam usar a droga pois, afinal, "what do you have to lose?" Trump e seus miquinhos amestrados d'álém mar querem que o tal medicamento seja usado em todos pacientes que tiverem diagnóstico positivo de infecção pelo vírus SARS-Cov-2 --e até por aqueles que nem têm diagnóstico confirmado, mas apresentam sintomas suspeitos. Ele se referia, claro, ao uso da já notória hidroxicloroquina (HCQ), desgraçadamente politizada até o osso por alguns políticos desesperados por encontrar algo que os salve nesta pandemia. No entanto, a droga em questão não vem ao caso, necessariamente. Quero abordar a pergun...

QUARENTENA, DIA 27

Por DANIELA MARTINS 11/4 - QUARENTENA, DIA 27. Hoje eu comprei cinco máscaras de tecido na banquinha do seu João. Ou melhor, no escritório desse novo empreendedor individual, como a reforma trabalhista o define. Pois ele me disse que trabalha vendendo óculos escuros e de grau na calçada da Ataulfo de Paiva, altura do Talho Capixaba, há 25 anos. Com a chegada do coronavírus, teve que “diversificar a natureza do negócio”. Arregimentou costureiras no bairro onde mora, a Ilha do Governador, e passou a vender máscaras de tecido a 10 reais e garrafinhas de álcool em gel a 25 reais cada. Repara na cadeira de presidente que ele ocupa, empreendedor de si mesmo. É claro que ele está à margem do sistema e que vai precisar da ajuda de 600 reais do governo. Eu fico pensando nos que estão à margem de todas as margens, fora dos centros urbanos, vivendo numa falta de tudo que nem fazemos a real ideia. Como vão baixar o app disponível para apple e android e efetuar o cadastro de inúmeras pági...

QUARENTENA, DIA 26

Por DANIELA MARTINS 10/4 - QUARENTENA, DIA 26. Passamos dos mil mortos no Brasil. O presidente foi comemorar o número numa padaria de Brasília, sem máscara, apertando mãos, tirando fotos com apoiadores que não acreditam na pandemia. Desrespeitando as medidas sanitárias pedidas à população, ele afirmou que ninguém vai impedir o seu direito de ir e vir. As ruas estão mais cheias em todo o país, e sabemos de onde vem o exemplo. E o descaso. Agora é coronavírus contra o time antivacinas-terraplanista-niobista-cloroquinista. A luta do século. De todo modo, torço para que o corona não saia vencedor. Só não pretendo jejuar com o nosso mandatário. Cidades do norte da Índia voltam a ver as montanhas do Himalaia no horizonte livre de poluição. Nova York enterra seus mortos em valas comuns e o sistema hospitalar do Amazonas entra em colapso. Mas a notícia do dia é que o meu amigo teve alta da UTI e voltou pra casa. Fora, Coronaro!

QUARENTENA, DIA 24

Por DANIELA MARTINS 08/4 - QUARENTENA, DIA 24. O dia amanheceu cinzento e chuvoso, do jeito que o carioca detesta. Mas acho que, desta vez, a chuva caiu muito bem. Fiquei imaginando os pingos lavando os muros, os bancos de praça, os portões dos prédios, as calçadas. Foi de alguma forma reconfortante pensar nisso. Fizemos medalhões de filé e brócolis ao alho e óleo para o almoço. Morreram quase duas mil pessoas em 24 horas nos Estados Unidos. Por aqui, foram 133 mortos em um dia, 800 no total até agora. É angustiante acompanhar o crescimento dos números.  Falei com a minha comadre por facetime e colocamos em dia aqueles meses todos de conversas que sempre ficam atrasadas na correria dos dias. Pois agora não há mais correria, é tempo de reconectar as conversas e os afetos.  Um apresentador de tv chamado Marcão do Povo sugeriu que o governo criasse campos de concentração para isolar os infectados. Foi suspenso pela emissora. Deveria ter sido demitido. O níve...

MOMENTOS DRAMÁTICOS

  (This photograph from Thomas Hoepker is available at magnumphotos.com ) EDUARDO MUYLAERT A mulher com a blusa colorida e cheia de sacolas caminhava pela beira da estrada, quebrando a expectativa da paisagem. Por que estaria fora de casa, quando quase todos estão confinados por causa da pandemia? Pode ser que tenha ido comprar mantimentos para alimentar a família, terá filhos? Parece ainda jovem, mantém a cabeça erguida e enfrenta sem temor os percalços do trajeto. Fazia quinze dias que eu não saia de casa, entre medroso e obediente. Lembrei do avô médico, que morreu muito cedo, quase não convivi com ele. Mas sei que nas epidemias do começo do século XX, ou quando a aviação de Getúlio ameaçava bombardear São Paulo, procurava pôr os filhos a salvo no interior. Para entrar em Morungaba, passagem obrigatória para Amparo e Serra Negra, foi preciso dar a testa ao termômetro. Protegi a boca e o nariz, e a enfermeira pediu, não sem um sorriso, pelo amor de Deus para eu não esp...

QUARENTENA, DIA 23

- Por DANIELA MARTINS 07/4 - QUARENTENA, DIA 23. Hoje foi dia de fazer máscaras caseiras para proteção contra a Covid-19. Aqui no Rio, as pessoas continuam andando muito mais pelas ruas do que em São Paulo, a única diferença com relação à outra semana em que estive aqui antes é que agora usam máscaras dos mais diversos modelos. E os mercados começaram a controlar o número de clientes. Fizemos esse modelo de perfex com elásticos de cabelo. Um luxo, não fosse o fato de eu ter comprado o perfex com cheirinho de limão. Se eu beber cachaça de máscara, já vira caipirinha. Vi um boteco no Leblon, com a porta de ferro abaixada até a metade, vendendo cerveja gelada. Algumas pessoas bebiam de pé na calçada. Um casal contabilizava três cascos de Antártica no chão. Os cariocas... Nós seguimos os dias fazendo comidas bem gostosas para testar se o paladar ainda está funcionando. Um dos sintomas da infeção é justamente a perda desse sentido. O governo lança o site para cadastrar as pessoa...

QUARENTENA, DIA 22

- Por DANIELA MARTINS 06/4- QUARENTENA, DIA 22. Dia de viagem pro Rio de Janeiro. Quando entrei no carro, me lembrei de uma pequena prece que ganhei de um rabino num trabalho antes do mundo parar. Naquela ocasião, as palavras me pareceram totalmente anacrônicas: “...Salva-nos de ladrões e animais selvagens e de todas as calamidades que possam advir e afligir o mundo”. Tava jogada no fundo da minha bolsa desde então e me pareceu bastante atual hoje. Estrada cheia, Serra das Araras bloqueada, pista em mão dupla, acidente feio na altura de Mesquita. Mas chegamos bem, eu e a minha garrafinha de álcool em gel. Fui recebida pelo namorado com uma shakshuka deliciosa, um prato muito comum em Israel, que ele fez de surpresa bem no dia em que eu reencontrei a prece do rabino. Foi um daqueles momentos em que um ateu se lembra de que existem mais coisas entre o Céu e a Terra. Enquanto eu viajava, “teve boatos de que o ministro Mandetta estava na pior” e de que seria demitido pelo presi...

JEJUM DE LIDERANÇA

- por TONY GOES Depois de apanhar dos EUA na primeira Guerra do Golfo, Saddam Hussein subitamente se tornou um muçulmano fervoroso. Quando se sentiu ameaçado pela oposição, Nicolás Maduro passou a citar a Bíblia e a ser contra o casamento gay, coisa que a esquerda moderna apoia. Mijair Biroliro não precisou perder uma guerra nem ver a economia se esfarelar para se travestir de líder messiânico. Sem a menor capacidade intelectual para enfrentar uma pandemia, o máximo que ele conseguiu propor até agora, além do liberou-geral, foi um patético jejum nacional para este domingo. O bandido do Malafaia topou na hora, talvez para desviar a atenção de seu vídeo contra a quarentena removido do Twitter, do Facebook e do YouTube. O pastor mais sinistro do Brasil sugere que os fiéis jejuem apenas da meia-noite ao meio-dia, algo que muitos já fazem no fim de semana. Assim é mole. Quero ver seus seguidores passarem fome por 24 horas e depois encararem um ônibus lotado (até porque há poucos), com ...

QUARENTENA, DIA 20

- Por DANIELA MARTINS 04/4 - QUARENTENA, DIA 20. Eu sempre gostei de cuidar da comida aqui em casa, mas a refeição que fazíamos juntos era apenas o jantar. As crianças lanchavam e almoçavam na escola. Agora, já acordo pensando no cardápio do dia. A louça vai se amontoando. A sorte é que eu gosto de lavar, são meus momentos diários de meditação ativa. Ganhei do meu namorado um rodinho de pia mágico que é uma delícia de usar. Os presentes da quarentena... Todas as coisas práticas ganham destaque e se tornam obje tos de desejo. Tenho entendido o hábito japonês de conversar com os objetos e agradecer a eles pela funcionalidade. Minha filha avisou que é um saco ter que viver um momento histórico. Os três filhos estão mais unidos, conversando animadamente. Que bom que são três e que podem se fazer companhia no confinamento.  Como estará a cabeça das crianças e dos jovens? Eles são motores cheios de energia, precisam de futuro, precisam de encontros e trocas, querem sonhar. E par...

QUARENTENA, DE 10 A 19

- Por DANIELA MARTINS 25/3 - QUARENTENA, DIA 10.  O presidente fez pronunciamento ontem e, na contramão de todos os outros países e das recomendações médicas, mandou isolar só os idosos e portadores de outras doenças. O restante da população deve voltar ao trabalho e às escolas. Ele afirmou que a Covid-19 é uma gripezinha que jamais o derrubaria, porque ele tem histórico de atleta. Faço questão de destacar essa frase. Mas o fato é que o desgoverno está empenhado em salvar a economia antes das vidas. No ge ral, não pegou bem. Algumas pessoas concordam e listam argumentos sobre os horrores de uma quebradeira econômica. Entendo, mas esta é uma questão moral, evitar ou aceitar mortes. Sejam lá quantas forem. Pela manhã, tudo permanecia fechado nas ruas. Seria um ato de desobediência civil? Afinal, o presidente mandou abrir. Se não abriu, será que ele ainda é presidente? Depois da República Velha e da República do Café com Leite, alguns falam hoje na República dos Governadores, pois ...