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Félix Faure, Homem e Barco

James Womack – tradução Eduardo Muylaert [Original publicado em maio de 2020 na Literary Review – Londres] Ele queria ser César, mas só foi Pompeu. Neste ano, 16 de fevereiro (mesma coisa todo ano, James), me dou conta da morte do presidente da França, Félix Faure, no ano mil oitocentos e noventa e nove, de grave apoplexia, enquanto recebia gratificação oral de sua amante, Marguerite Steinheil. Um festival apropriado e alternativo: orgasmo/morte, tão perto do Dia dos Namorados. Poucos anos após a morte de Faure, em mil novecentos e oito, President Félix Faure , um barco francês de quatro velas, naufragou na costa da Nova Zelândia. Faure lançou botes salva-vidas que chegaram à terra.  Ninguém morreu; a ilha não era deserta. Havia uma cabana, algumas provisões não muito antigas. Logo mataram albatrozes (‘longe de serem saborosos’) e depois dos albatrozes, os pinguins. Os pássaros ficaram logo traumatizados: ...

ORAÇÃO PELA METADE

Por EDUARDO MUYLAERT Dai-me alguma profundidade Mas não o oco do poço Dai-me alguma serenidade Mas não a calma do tolo Dai-me alguma densidade Mas não o peso do ouro Dai-me alguma caridade Água, pão, talvez um ovo Dai-me alguma piedade Para sentir pena do outro Dai-me também uma maldade Para ficar bem com o tinhoso Dai-me alguma humildade Para não perder o pescoço Dai-me alguma santidade Mas não tirai o meu gozo Dai-me alguma gravidade Mas não o lugar do morto Dai-me alguma eternidade Mas não apresse o meu voo

A PESTE DO SÉCULO XXI

 - Por EDUARDO MUYLAERT   Não temos tempo de chorar a morte Está na hora de lavar os pratos Deixa o coveiro carregar os corpos Vá lamentar a sua própria sorte Fui buscar na estante meu volume de L’Oeuvre au Noir , de Marguerite Yourcenar. Lembrava que tinha algo a ver com a Peste Negra. A Idade Média talvez pudesse ajudar a entender o que acontece conosco no ano da graça de 2020. Achei também a tradução do poeta Ivan Junqueira, sexta edição, Nova Fronteira, 2018. Sorte a nossa, pois na França a obra está esgotada, e nos Estados Unidos um exemplar pode custar quase mil dólares. Aprende-se muito com ele. “ Martinho fez distribuir a sopa aos pobres sob o pórtico da lgreja de São Gedeão; a caridade cristã e o medo de que eclodisse alguma arruaça inspiravam ao burguês essas espécies de esmolas. Tais males, no entanto, nada mais eram do que a antecipação de uma calamidade infinitamente mais terrível. Vinda do Oriente, a peste entrara na Alemanha pela Boêmi...

UM DIA DE CADA VEZ, a tristeza

- Por ETEL FROTA Não sei vocês. Eu, choro todos os dias. O Dia Zero da minha quarentena, a véspera da Grande Compra de Supermercado, terminou com a notícia da morte trágica de uma querida amiga. Foi ali que comecei a chorar. Fazia muito tempo que andava de olhos secos, ardidos e apressados. Desde então, venho desaguando à toa. Por ela, por mim, pelos meus, pelos dela, pelos teus, pelos nossos, por nós todos, amém. Por esse mundo que olho pela janela e pela TV, esperando acordar a qualquer momento. Pela saudade das filhas, da neta, distantes. Uma, pela geografia. As outras, pela quarentena. Algumas vezes, tenho chorado por coisas bonitas. A canção do meu amigo Sonekka , por exemplo, que diz: Por todos os artistas garçons e balconistas as agências e os turistas padres, pobres, motoristas Deus dai luz aos cientistas protegei os enfermeiros os velhinhos e os enfermos força pra todos doutores chuva pros agricultores equilíbrio aos fabricantes e todos tra...