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Mostrando postagens com o rótulo RIO DE JANEIRO

Lendo meu jornal (EM)

Sentei-me num café da Praça Vermelha, na única vez em que fui a Moscou. Mesmo sem entender patavina, abri solene o Pravda , era um sábado de sol. O rapaz que me servia mostrou discretamente uma notícia e sussurrou, arranhando um espanhol: no túmulo de Stalin foi achado um livro de poesias, era Maiakovski, mas a capa indicava o Capital. Em Paris por sua vez, agora no Café de Flore, também era um sábado de sol, abri encantado o Libération e descobri que tinham visto Jean Genet andando distraído pelas margens do Sena. No Rio de Janeiro, também num sábado de sol, abri o primeiro jornal que encontrei sobre o balcão. No segundo caderno fiquei triste com a manchete: São Sebastião declarou que não volta nunca mais.

QUARENTENA, DIA 47

Por DANIELA MARTINS 01/5 - QUARENTENA, DIA 47. Michele estava sentada no chão, ao lado do pitoco metálico para prender os cães, na porta da padaria Aracaju. Ela cobria os cabelos com uma sacola plástica e pedia alguma ajuda aos clientes que chegavam. Nossos olhares se cruzaram e ela, do nada, achou que precisava me dar alguma explicação sobre aquele saco na cabeça. “Amada, tá tão horrível que eu não tenho coragem de mostrar. É que eu uso bem descolorido, mas tô sem condições de comprar creme, tá tudo quebrado”. Eu ri e disse que aquele troço tava certamente pior do que qualquer cabelo, por mais desgrenhado que fosse. Ela riu também. Fui até o quarteirão seguinte e comprei um kit de xampu e condicionador pra Michele. Ela ficou feliz e me contou que hoje é seu aniversário. Nem posso imaginar como é a vida nas ruas para uma mulher trans. Enquanto eu estava na farmácia comprando o creme pra ela, choveu. Quando eu saí da padaria, já estava sol. Foi como se estivesse vivendo num ...

QUARENTENA, DIA 24

Por DANIELA MARTINS 08/4 - QUARENTENA, DIA 24. O dia amanheceu cinzento e chuvoso, do jeito que o carioca detesta. Mas acho que, desta vez, a chuva caiu muito bem. Fiquei imaginando os pingos lavando os muros, os bancos de praça, os portões dos prédios, as calçadas. Foi de alguma forma reconfortante pensar nisso. Fizemos medalhões de filé e brócolis ao alho e óleo para o almoço. Morreram quase duas mil pessoas em 24 horas nos Estados Unidos. Por aqui, foram 133 mortos em um dia, 800 no total até agora. É angustiante acompanhar o crescimento dos números.  Falei com a minha comadre por facetime e colocamos em dia aqueles meses todos de conversas que sempre ficam atrasadas na correria dos dias. Pois agora não há mais correria, é tempo de reconectar as conversas e os afetos.  Um apresentador de tv chamado Marcão do Povo sugeriu que o governo criasse campos de concentração para isolar os infectados. Foi suspenso pela emissora. Deveria ter sido demitido. O níve...