Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo DITADURA

Quarentena, ano 2: vivendo com força a distopia

  Por Daniela Martins Quando me mudei para Brasília, em janeiro de 2010, havia um clima de alegria no ar, era inegável. O Brasil vivia tempos de mudança social intensa e de muita esperança no futuro.  Na rampa do Congresso Nacional, que visitei com meus filhos ainda bem pequenos naquela ocasião, alguém havia deixado um recado escrito com batom vermelho: “Valeu, Lula!”.  Fiquei encantada com aquela irreverência, com aqueles palácios da Praça dos Três Poderes, tão importantes, todos sem muros ou grades, com os garotos descendo as laterais do gramado em folhas de papelão.  Um ano depois, o país elegia a primeira mulher para a Presidência da República. Nós comemoramos, rodamos a cidade acompanhando o buzinaço alegre dos carros. Eu realmente acreditava que meus filhos veriam um país muito diferente do Brasil da ditadura em que eu cresci.  Essa certeza começou a mudar com aquele processo vergonhoso de impeachment da Dilma.  A foto que ilustra este post eu tirei n...

UM LADO BOM? Eduardo Muylaert

(Fragmento da capa de Paranoia, Roberto Piva, IMS) Por EDUARDO MUYLAERT Nessa hora de pandemia e desgoverno,  quando se ouve até falar em ditadura, não custa lembrar do que acontecia nos terríveis anos de chumbo. Esse conto foi originalmente publicado  em Prêmio Sesc Machado de Assis, 2015. 1.      Quando vieram me buscar eu não estava preparado. Acho que nunca estamos prontos para nada. O amor e a morte, e até algumas coisas bem mais banais, costumam chegar de repente, sem aviso, mesmo quando se sabe que elas são inevitáveis. Pode ser tudo uma questão de tempo; às vezes conseguimos uma prorrogação, como no futebol, mas não dá para fugir do desempate por pênaltis. 2.      Toda pessoa tem um lado bom, mesmo os carrascos. É o que minha avó Mira sempre repetia, quando eu chegava da escola e me queixava de um professor ranzinza ou de um colega provocador. Ao longo da vida, nas situações mais difíceis, ouço...

QUARENTENA, DIA 50

Por DANIELA MARTINS 04/5 - QUARENTENA, DIA 50. Vi uma cidade de pessoas mascaradas por força da lei. Vi cariocas pedalando, caminhando na orla e até mesmo tomando cerveja de máscaras, porque sempre se dá um jeito pra tudo aqui no Rio. Da entrada do Vidigal, a vista é de tirar o fôlego, uma beleza que resiste à urbanização eternamente desleixada da Cidade Maravilhosa. Às minhas costas, casas empilhadas e erguidas sobre uma encosta íngreme desafiam qualquer cálculo de engenharia e a própria lei da gravidade. Nem mesmo a urbanização desleixada chegou ali, mas até pra isso se dá um jeito. Caminhei até o ponto em que está bloqueada a ciclovia que desabou três vezes e matou duas pessoas. O absurdo do absurdo do absurdo. Estava com os tênis errados e ganhei três bolhas nos pés e uma vontade de chorar. O coronavírus levou Aldir Blanc, que teve coragem de desafiar a ditadura com versos, que teve coragem de desafiar o tempo e dizer “ele adormece as paixões, eu desperto”. A letra de...