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Mostrando postagens com o rótulo POEMA

NO TÚMULO DO POETA RENÉ CREVEL (edu)

Um poema em prosa de EDUARDO MUYLAERT Da minha casa na avenue de Chatillon que hoje é a avenue Jean Moulin eu podia ter ido a pé em pouco tempo ao descuidado cemitério de Montrouge Acabei nunca indo procurar — na quadra dezenove o túmulo discreto de uma família burguesa singelo granito rosa onde repousam serenos os restos do inquieto poeta René Crevel Se não dou certo em nada me mato — tinha dito leal, cumpriu a promessa — só mais tarde acabou reconhecido cultuado pranteado como poeta e escritor surrealista A vida teve cheia de intempéries tinha ainda catorze anos quando a mãe que só fazia blasfemar contra o cadáver o arrastou para ver o pai dependurado Sem ilusões. Fazia amor com homens e mulheres vivia com a cruel tuberculose — a peste branca e tinha amigos em diversos sanatórios além do peito, doíam muito os rins e a vida Tinha uma amante argentina, —   Condessa Cuevas de Vera a quem deixou a última mensagem ...

ONDE LEIO O MEU JORNAL (Edu)

  por — Eduardo Muylaert Gosto de ler o Globo olhando o mar do Leblon nos quiosques da calçada o coco com muita água invejo os que dão conta de driblar vento e areia ler tranquilos o diário na barraca em pleno sol distraídos nem reparam nos gritos:  — mate leão nos sacos de biscoito globo e nas bundas [e peitos] ao redor Gosto de ler o Guardian no terrasse bar da Tate Modern level 1 do Blavatnik Building depois ver uma exposição [qualquer uma] Em São Paulo tanto faz leio por alto o Estadão [tão cioso] aí mergulho na Folha [que se acha tão moderna] mais importante o expresso [sem falar no pão francês] Em Paris, no terraço de um café o Flore, o Deux Magots, o Tabac da esquina, começo pelo alegre Figaro, leve e conservador, aí ataco o Le Monde, esse sim é de rigor Em Milão, ou mesmo em Roma, sempre o Corriere dela Sera diante de uma bela chiesa a qual encaro de esguelha Agora viajo mais [muito mai...

UM SONHO É COMO UM LIVRO

Por EDUARDO MUYLAERT

ORAÇÃO PELA METADE

Por EDUARDO MUYLAERT Dai-me alguma profundidade Mas não o oco do poço Dai-me alguma serenidade Mas não a calma do tolo Dai-me alguma densidade Mas não o peso do ouro Dai-me alguma caridade Água, pão, talvez um ovo Dai-me alguma piedade Para sentir pena do outro Dai-me também uma maldade Para ficar bem com o tinhoso Dai-me alguma humildade Para não perder o pescoço Dai-me alguma santidade Mas não tirai o meu gozo Dai-me alguma gravidade Mas não o lugar do morto Dai-me alguma eternidade Mas não apresse o meu voo

A TRAMELA E O MANCEBO

  Por EDUARDO MUYLAERT