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¿Algo más en lo que pueda ayudarla, señora? – parte 2


 

ETEL FROTA

 

Sem almoço, com uma certa ardência no estômago, consegui embarcar.

No voo para Santiago, lembrei da NZTD, a declaração do viajante sem a qual eu não entraria na Nova Zelândia.  Bianca e eu, no final das contas, tínhamos esquecido dela. Haveria tempo para resolver isto na escala.

Desembarcada, procurei o monitor que me diria o portão de embarque para Auckland; seria informado dentro de 19 minutos. Eu tinha muita sede e fome, mas – pela bagatela de dezenove minutos – não valia a pena sair dali sem saber para que lado me dirigir. Sentada no chão, esperei pela informação por outra uma-hora-e-vinte-minutos. Talvez a cabala explique uma coisa dessas.

              Corri para o portão de embarque.

              Quem podia me ajudar com a NZTD? Lucia me mostrou como abrir o formulário; o embarque estava começando. Quando vi o teor das perguntas, entendi que não daria tempo. Eu teria que relacionar, uma a uma, as datas de vacinação, as marcas das vacinas, detalhes do exame PCR, dados do passaporte e dos voos, etc etc etc... Voltei ao balcão. “Señora, sin esta declaración usted no puede embarcar”. Mas eu já embarquei em Guarulhos, Lucia, estou em uma escala, como isto é possível? “Señora, um error no puede justificar otro error”.

Violeta, ali ao lado, se compadeceu de mim e tratou de me acalmar com palavras encorajadoras, enquanto eu tentava dar conta daquela insanidade, com um olho na fila de embarque, em seus momentos finais. Consegui responder. Ao final do questionário, no entanto, havia que fazer um upload da carteira de vacinação. O formulário era muito amigável, fornecia um link com instruções detalhadas para o procedimento; várias páginas de descrição para os mais diversos sistemas operacionais e extensões de documentos.

              Comecei a passar mal. Violeta confabulou com Lúcia e decidiram, então, que se eu fizesse um print da tela do Conecte SUS, mesmo sem ter conseguido fazer o upload, ela consideraria isto documento suficiente para me autorizar a embarcar.

              Quando afivelei o cinto só não tive uma epifania à moda da história do bode soviético, porque a sede era insuportável e o xixi insegurável. Fome eu já não sentia. [Na corrida desde o monitor até o portão de embarque, tinha comprado uma água que, sequer aberta, foi confiscada por outra funcionária zelosa de sua missão de corrigir os errores do mundo]. Algum tempo depois, hidratada e alimentada, bexiga esvaziada, rosto lavado, dentes escovados, recostei os 4 cm da poltrona e relaxei para um dos melhores voos que já fiz na vida.

              O que faz um perrengue na vida da gente. Seriam mais quase 13 horas, mas eu desembarcaria na Nova Zelândia onde tudo sempre dá certo.

Tranquila, Señora.

Ou quase, porque ainda estava insegura com o acochambramento da NETD.


continua...

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