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Félix Faure, Homem e Barco

James Womack – tradução Eduardo Muylaert [Original publicado em maio de 2020 na Literary Review – Londres] Ele queria ser César, mas só foi Pompeu. Neste ano, 16 de fevereiro (mesma coisa todo ano, James), me dou conta da morte do presidente da França, Félix Faure, no ano mil oitocentos e noventa e nove, de grave apoplexia, enquanto recebia gratificação oral de sua amante, Marguerite Steinheil. Um festival apropriado e alternativo: orgasmo/morte, tão perto do Dia dos Namorados. Poucos anos após a morte de Faure, em mil novecentos e oito, President Félix Faure , um barco francês de quatro velas, naufragou na costa da Nova Zelândia. Faure lançou botes salva-vidas que chegaram à terra.  Ninguém morreu; a ilha não era deserta. Havia uma cabana, algumas provisões não muito antigas. Logo mataram albatrozes (‘longe de serem saborosos’) e depois dos albatrozes, os pinguins. Os pássaros ficaram logo traumatizados: ...

UM DIA DE CADA VEZ, A FAXINA

    Alguns pontos de mofo no meu banheiro vinham desafiando minha autoestima. Não, eles não começaram agora, são pré-pandêmicos; talvez tenham começado a me atormentar neste momento porque tenho olhado mais para eles, ao mesmo tempo em que meus mecanismos de resiliência dão os primeiros sinais de esgotamento.    O fato é que hoje decidi encará-los. Com coragem. Eram só alguns pontinhos, coisa pra meia hora.     No máximo, vai, estourando, uma hora.   Essa uma hora, a primeira da manhã, já estourei, de cara, consultando tutoriais no YouTube, me apetrechando para o enfrentamento.    Faxina teórica.   O revestimento do meu banheiro, suporte físico dos fungos, tem uma história piegas. Necessário contá-la.   Tive um namorado, certa vez, um grande amor da vida. Tão doentinho quanto eu. Fomos felizes, ríamos muito na comparação dos nossos sintomas obsessivo-compulsivos. Fomos felizes.    Levamos ...

UM DIA DE CADA VEZ: modesta contribuição à divulgação científica

A Covid-19 tem sido uma grande incógnita para a ciência. Algumas coisas, no entanto, já estão estabelecidas. 1. o vírus não tem pernas 2. o vírus não tem asas 3. quando uma curva está indo para cima, ela é ascendente 4. curva ascendente significa que o número de casos está aumentando 5. quando o número de casos está aumentando, as pessoas que circulam vão conduzir os vírus (que não têm pernas nem asas) para outros lugares e pessoas, e a curva vai ficar cada vez mais ascendente 6. o nome de quem manda abrir comércio para a rua se encher de gente na curva cada vez mais ascendente é criminoso 7. o nome de quem lamenta muito, mas é o destino de todos nós é comandante-em-chefe dos criminosos 8. se todos os brasileiros mortos pela Covid-19 até hoje fossem postos de comprido na beira da pista, uma pessoa poderia ir a cavalo do Palácio do Planalto, Brasília(DF) até Águas Lindas de Goiás(GO), escoltado por uma linha ininterrupta de cadáveres

MINDFULNESS

Por EDUARDO MUYLAERT — Oi, que bom que você veio! — Por quê? Você achou que eu não vinha? — Não, claro que não. É que é a primeira vez que te convido, custei a tomar coragem. — Por quê? Você pensou que eu ia te dar mole? — Não, claro que não. Super normal tomar um chope e bater um papo. Só queria te conhecer melhor, afinal estamos sempre com outras pessoas. — Não estou acostumada com essa coisa de happy hour , sei que é moda, mas sou mais caseira. Não saio muito mesmo. — Então! As pessoas que não agitam muito costumam ser as mais interessantes. Têm vida própria, pensam por si mesmas. — Aliás, odeio chope, cerveja, tudo. Pode pedir uma caipirinha de limão para mim, pouco açúcar, muito gelo. — Vodca ou cachaça? — Vodca, claro, está me achando com cara de cachaceira? — Adorei esse seu lenço azul, valoriza o rosto. — Pode parar, se é para vir com conversa mole, suspende a caipirinha e eu estou indo. — Não, pelamordedeus, não me leve a mal. Só fiquei impressio...

DE PERNAS PARA O AR (Edu)

Por EDUARDO MUYLAERT Joaquim Fernandes era um rapaz tímido, não fazia sucesso com as mulheres, também não era bonito nem feio, talvez um pouco sem graça. Não combinava com carnaval. Nos bailes se tornava um chato, enchia a lata e desandava a falar besteiras, ninguém aguentava. Joaquim não se via enturmado na folia, queria mesmo era ter uma namorada, nem precisava ter beleza ou outras qualidades, só tinha que ter pernas bonitas. Sim, acreditem, essa era a única exigência de Joaquim Fernandes, uma espécie de fetichismo que nunca escondeu. Todos os anos se renovavam as esperanças de Joaquim no caminho do clube Caiçara, o melhor da cidade. Quem sabe dessa vez vai; tinha apostado aos 14, 15, 16 e 17. Agora já era maior de idade, ia jogar todas as fichas. De fato, logo ficou vidrado numa morena não muito grande, nem chegou a reparar no rosto, tão distraído estava com as pernas sinuosas, em tons que tentou definir como uma mistura delicada de sépia, rosa, e um pouco de our...

UM LADO BOM? Eduardo Muylaert

(Fragmento da capa de Paranoia, Roberto Piva, IMS) Por EDUARDO MUYLAERT Nessa hora de pandemia e desgoverno,  quando se ouve até falar em ditadura, não custa lembrar do que acontecia nos terríveis anos de chumbo. Esse conto foi originalmente publicado  em Prêmio Sesc Machado de Assis, 2015. 1.      Quando vieram me buscar eu não estava preparado. Acho que nunca estamos prontos para nada. O amor e a morte, e até algumas coisas bem mais banais, costumam chegar de repente, sem aviso, mesmo quando se sabe que elas são inevitáveis. Pode ser tudo uma questão de tempo; às vezes conseguimos uma prorrogação, como no futebol, mas não dá para fugir do desempate por pênaltis. 2.      Toda pessoa tem um lado bom, mesmo os carrascos. É o que minha avó Mira sempre repetia, quando eu chegava da escola e me queixava de um professor ranzinza ou de um colega provocador. Ao longo da vida, nas situações mais difíceis, ouço...