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QUARENTENA, ANO 2 - Meu encontro com o Mestre dos Magos

  Por Daniela Martins As praias estão novamente desertas, as lojas fechadas, tudo exatamente como há um ano.  Em março de 2020 o Brasil tinha 165 mortos. No total.  Em março de 2021 os mortos passam de 3 mil. Por dia. A sensação é de que estamos vivendo em um looping  que piora a cada volta. Em progressão geométrica. O cenário atual não é bom no mundo inteiro, a pandemia vem e vai em ondas, obrigando os governos a adotar medidas de isolamento e a acelerar a vacinação de suas populações. No Brasil, o quadro é desolador, porque o presidente da República se recusa a liderar as ações de combate à doença. Pressionado pelo escandaloso número de 300 mil cidadãos mortos, ele se viu obrigado a fazer um pronunciamento à nação ontem à noite. Além de despejar sua costumeira cascata de mentiras, como afirmar que sempre defendeu a compra de vacinas, ele finalmente se solidarizou com a dor das famílias que perderam parentes para a doença. Depois de um ano. Depois de 300 mil ...

QUARENTENA, ANO 2 - Já é Natal no Leblon!

Por Daniela Martins Quando fugi do Rio, lá pelos idos de 2010, prometi que só visitaria a cidade durante o inverno. Cumpri a promessa à risca durante a década seguinte, até que quebrei meus votos por amor. Sim, os apaixonados sempre cometem suas loucuras: eis-me no Rio em março, justamente o pior mês. Caminhava pela Ataulfo de Paiva rumo a Ipanema quando reparei que não havia uma única barata pelas calçadas, nem esmagada, nem seca, nem viva. Quase voltei a amar o Rio, mas logo me dei conta de que algo muito errado estava acontecendo.  Jamais, em meus 46 anos, atravessei calçadas cariocas sem topar com uma barata. O Rio sem baratas é tipo a Andressa Urach virando crente: alguma coisa está fora da ordem, é o prenúncio de que vai dar merda. Da Praça Antero de Quental até a Nossa Senhora da Paz, contei mais de 20 pessoas vivendo nas ruas e pedindo ajuda para comprar um prato de comida. A situação geral piorou bastante com a pandemia, impossível não enxergar isso.  Entrei na Casa ...

UM DIA DE CADA VEZ, o caruncho

Desde há muito tempo aderi aos orgânicos, mas na era pré pandêmica me atinha principalmente às frutas, verduras e legumes. Além disto, desde que meu ninho esvaziou deixei de estocar o que quer que fosse. A pandemia mudou tudo. Descobri um hortifruti sensacional, compra online, entrega em domicílio. E que, além dos vegetais frescos, tem grãos -o melhor milho de pipoca de todos os tempos- açúcar demerara, mel, molho de tomate pronto, farinhas. Aderi entusiasticamente. E cometi a bobagem de comprar mais feijão do que sou capaz de comer. Hoje fui buscar o último pacote para cozinhar. No fundo de uma das caixas de plástico, brancas, em que guardo meus mantimentos, percebi pontinhos pretos. Imaginei que fosse um saquinho de linhaça que tivesse furado. Só que a linhaça se movia, reparando bem. Tirei a caixa de dentro do armário para ver melhor. Minhas amigas, meus amigos, faltam-me recursos narrativos... Conheci caruncho muito bem. Criança bem novinha, morei certa vez em uma casa que tinha mi...

UM DIA DE CADA VEZ: vamos falar de números?

  Vamos falar de números? A equivalência de brasileiros mortos pela Covid-19 é a seguinte: Brasil =   todos os países da Ásia, exceto a Rússia Indígenas brasileiros = toda as cidades da Sicília, na Itália Estado de Pernambuco = todos os países da América Central Estado do Rio de Janeiro = todos os países da África Cidade de São Paulo = Alemanha 01 (um) hospital no Rio de Janeiro = 02 (duas) Coreias do Sul Centro de São Paulo = Estado do Novo México (EUA) Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro (RJ) = Pequim (os dados são de Camille Lichotti e Renato Buono, deu na Revista piauí de quem copiei a imagem, sem nem saber se podia) Pra quem preferir falar de extensões territoriais, sugiro dar uma olhada na matéria. É desesperador. https://piaui.folha.uol.com.br/geografia-macabra-da-covid-19/

SOLIDÃO AMERICANA (Edu)

por — Eduardo Muylaert Se sua vida anda meio vazia nessa hora da terrível pandemia experimente uma revista literária tipo a New York Review of Books. Se não conseguir achar um companheiro (não é fácil), sua solidão, ao menos, pode virar poesia. Punk, alternativa, bi/pansexual Mulher asiática procura amor durante a biocrise Preguiçosa poeta no final dos seus 20 anos, Millenial, sardônica e irreverente. Você: incisivo, experiente, carinhoso, sem Covid-19.  Vamp-me via zoom ou facetime Ponha minha alma em fogo Instagrame meu ego impaciente Hashtague meu desejo. Nossos lábios ainda não se tocaram, tweet me, baby, tout de suite!  Sou anticorpo! Quem é você? Você também é Anticorpo? Como é vergonhoso ser o antígeno que ingrato - como uma taturana, engana seu anfitrião o dia inteiro a imitar você! Mulher, 70 anos, NY, procura /gosta de homem afetuoso que aprecie livros e música. Meu pombo correio traz uma mensagem para ...

A COISA NÃO FUNCIONA

  por — Eduardo Muylaert   Ela se percebeu um pouco ridícula, a torradeira impassível e ela a olhar desconsolada. Se ele estivesse aqui, dava um jeito, se fosse um celular dava reset . Nunca se conformou, os aparelhos deviam vir em português, é lei, não é? Tostar o pão vem de outra era, mais calorosa. As primeiras máquinas queimavam as pontas dos dedos. Dez anos depois, o pão se pôs a saltar, como a rã do Matsuo Bashô a perturbar as águas do velho tanque com seu furuike ya kawazu tobikomu mizu no oto. Logo mais surgiriam as três maravilhas que moldaram uma civilização: a torradeira automática, o pão de forma em fatias e o breakfast, incluindo ovos com bacon e uma quantidade extraordinária de calorias. Não havia lar sem torradeira na América do século XX. Na casa de Portinari há uma máquina de café expresso, cilindro brilhante de aço com um só pistão. Maria cresceu com o aroma do café passado no coador, a mãe botava bastante açúcar, passou a ver Candi...

GULODICE (Edu)

  por — Eduardo Muylaert       Fui traído pela memória e pela minha geladeira. Deixei sob sua zelosa guarda um precioso potinho de ovas de esturjão. Louco por uma segunda vez, abri o pote e dei de cara com a gosma verde que maculava o produto original. O sugestivo aroma de penicilina foi decisivo para o enjoo. Claro, a culpa foi minha, não respeitei a reiterada advertência. Certas coisas não têm volta, depois de abertas, devem ser consumidas de imediato. Ou descartadas, sem cerimônia e sem remorso. O prazer, como a história para Marx, pode se repetir como tragédia ou como farsa. A iguaria já cumprira o seu papel. Naquela noite inesquecível, com cenas de filme francês, as ovas pareciam caviar, o espumante fez as vezes de champanhe. No embalo, faltou o ponto final, não tive peito para o clássico “ the end ”.