(Fragmento da capa de Paranoia, Roberto Piva, IMS) Por EDUARDO MUYLAERT Nessa hora de pandemia e desgoverno, quando se ouve até falar em ditadura, não custa lembrar do que acontecia nos terríveis anos de chumbo. Esse conto foi originalmente publicado em Prêmio Sesc Machado de Assis, 2015. 1. Quando vieram me buscar eu não estava preparado. Acho que nunca estamos prontos para nada. O amor e a morte, e até algumas coisas bem mais banais, costumam chegar de repente, sem aviso, mesmo quando se sabe que elas são inevitáveis. Pode ser tudo uma questão de tempo; às vezes conseguimos uma prorrogação, como no futebol, mas não dá para fugir do desempate por pênaltis. 2. Toda pessoa tem um lado bom, mesmo os carrascos. É o que minha avó Mira sempre repetia, quando eu chegava da escola e me queixava de um professor ranzinza ou de um colega provocador. Ao longo da vida, nas situações mais difíceis, ouço...